Fotógrafo registra males causados por agrotóxicos e transgênicos

Publicado em Quinta, 02 Outubro 2014 17:35 (CPT Nacional)

Durante quase três anos, Álvaro Ybarra Zavala, fotógrafo espanhol, fotografou a indústria alimentar questionando seus excessos. Algumas de suas fotos em preto e branco foram apresentadas em Perpignan, no Festival de Fotojornalismo Visa pour l’image.

Por Caroline Stevan
Do jornal Letemps

As imagens são de transgênicos, máquinas de fumigação de pesticidas, silos gigantes que a empresa Monsanto instalou em Rojas, Argentina.

Entre outras imagens tão chocantes, uma é da filha de um agricultor que celebra seu aniversário, mas que pede de presente a vida para seus filhos gravemente doentes e com deformidades.

Clique aqui e assista ao vídeo produzido a partir das fotografias

Como seu deu a realização desse projeto?

Comecei trabalhando com um caso em especial na Argentina e descobri que haviam muitas histórias pra contar. Então entendi que era um tema importante e com grande impacto global. Acompanhado de um jornalista, um médico e alguns advogados, me lancei nessa ampla investigação.

Minha ideia não era agir como um ativista, mas criar um debate sobre a maneira que queremos que produzam nossos alimentos. Isso é algo crucial: todos nós nos alimentamos. Os médicos e advogados me assessoravam, porque queríamos ter certeza de conseguir avançar nas investigações. Do outro lado, a Monsanto, colocou seus advogados de prontidão para nos impedir a realização e publicação de nosso trabalho.

A Monsanto aparece como o grande mal nas suas fotografias. É o único?

Não é o único, mas é o principal. A Monsanto é um monstro.

Quais são os principais problemas?

Se você for à Índia, Argentina ou outros países, comprovará que este tipo de produção agrícola está criando problemas de saúde pública e ao meio ambiente, além de violações dos direitos humanos, problemas políticos e grandes tensões econômicas. Esta indústria precisa de cerca de 4000 a 10.000 hectares de terra para ser rentável.

Os pequenos agricultores locais são marginalizados e em todas as partes em detrimento das multinacionais. Os pequenos produtores se vem obrigados a vender suas terras, como está acontecendo no Brasil. E se não o fazem, seus campos de cultivo são rodeados por outras propriedades que fazem uso dos pesticidas.

Na Argentina, por exemplo, já existe a primeira geração de crianças que foram afetadas porque seus pais foram expostos a substâncias químicas, são abortos espontâneos, enfermidades, malformações, como a hidrocefalia. Estes casos formam uma legião. Pensei que teria que realizar uma busca exaustiva, mas a cada 600 habitantes há pelo menos 70 casos. Os adultos sofrem de câncer e doenças de pele. A contaminação acontece pelos produtos, mas também pela água e pelos alimentos.

Se te perguntarem se a indústria alimentar está envenenando o mundo ao invés de alimentá-lo. Que resposta dará?

Obviamente as grandes companhias argumentam que eles são a solução para a fome no mundo. Os ativistas sustentam que a crise alimentar está demonstrando o contrário. É certo que o planeta está muito afetado por esse tipo de produção.

Outros setores estão conscientes desse problema?

Sim, mas a indústria dá muito trabalho outros setores econômicos. As cooperativas que administram os seguros de saúde, que oferecem proteção jurídica, etc, todas elas estão cercadas de multinacionais como a Monsanto. Tudo é feito para que o sistema siga funcionando.

O que dizem as autoridades?

Vivem também do negócio. Nosso trabalho tem sido muito pouco divulgado, mas pela sua representação na Argentina estamos sendo submetidos a muitas pressões que são procedentes dos níveis mais altos.

Quais são os seus próximos passos nessa investigação?

Malawi, Moçambique, Índia, Europa e América de Norte. A Monsanto está em todos e cada um destes países, mas, uma vez mais, nosso trabalho se concentrará nos métodos de produção de alimentos e não na empresa em particular.

Venenos legais, por Álvaro Ybarra Zavala

O cultivo de transgênicos e o uso de produtos químicos cada vez mais agressivos têm transformado a indústria agrícola argentina. Os casos de câncer e má formação estão aumentando. É a luta das populações locais contra um inimigo invisível. O vídeo abaixo mostra as imagens de “Historia de una tierra herida”, um ensaio fotográfico do jornalista Álvaro Ybarra Zavala sobre os terríveis efeitos da agricultura dos transgênicos na Argentina.

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70 películas sobre la situación de la mujer en el mundo

Por Sonia Herrera (UnitedExplanations)

Este 8 de marzo es un día para conmemorar la lucha y para visibilizar el camino recorrido y el que nos queda todavía por recorrer en todos los ámbitos de nuestra sociedad. Porque como dijo María José Urruzola, “la clave del triunfo feminista está en la paciencia revolucionaria”. Y aunque a veces la paciencia se tambalee, los pequeños y grandes logros nos hacen mantenernos firmes ante el machismo reaccionario.

Visibilizar las vidas de las mujeres en el cine, y en los medios de comunicación en general, es esencial para contravenir el discurso patriarcal dominante y romper con el predominio del protagonismo masculino en nuestras pantallas[1]. Si a esto añadimos el aumento de la representación de mujeres que no se correspondan con los estereotipos tradicionales que perpetúan la desigualdad y la discriminación y la creación de nuevos modelos de socialización de género, estaremos avanzando hacia una nueva cinematografía alejada de la típica mirada androcéntrica que no infrarrepresente ni oculte ni desvalorice a las mujeres.

Por eso, para seguir conmemorando el trabajo hecho, para seguir denunciando que aún nos enfrentamos a múltiples desigualdades y violencias, y para visibilizar el papel de las mujeres que protagonizan sus propias vidas de forma independiente y que luchan por un mundo mejor, quiero recomendar algunas películas y documentales para una velada de reflexión sobre la situación de las mujeres en el mundo o un cinefórum o una agradable tarde de sofá y manta…

  1. Violeta se fue a los cielos, de Andrés Wood
  2. Criadas y señoras, de Tate Taylor
  3. Las flores de la guerra, de Zhang Yimou
  4. Rebelle, de Kim Nguyen
  5. La voz dormida, de Benito Zambrano
  6. De tu ventana a la mía, de Paula Ortiz
  7. Las 13 rosas, de Emilio Martínez-Lázaro
  8. Sylvia, de Christine Jeffs
  9. Katmandú, un espejo en el cielo, de Icíar Bollaín
  10. El patio de mi cárcel, de Belén Macías
  11. Reza para que el diablo regrese al infierno, de Gini Reticker
  12. El color púrpura, de Steven Spielberg
  13. Te doy mis ojos, de Icíar Bollaín
  14. ¿Y ahora adónde vamos?, de Nadine Labaki
  15. Brave, de Mark Andrews, Brenda Chapman y Steve Purcell
  16. Mujercitas, de Gillian Armstrong
  17. Las horas, de Stephen Daldry
  18. Visión. La historia de Hildegard Von Bingen, de Margarethe von Trotta
  19. Hanna Arendt, de Margarethe von Trotta
  20. Ni Dios, ni patrón, ni marido, de Laura Mañá
  21. Pago justo, de Nigel Cole
  22. Agua, de Dīpa Mehta
  23. Las mujeres de verdad tienen curvas, de Patricia Cardoso
  24. Arráncame la vida, de Roberto Sneider
  25. El Cairo 678, de Mohamed Diab
  26. Yermas,  de Teresa Mora
  27. Women without men, de Shirin Neshat
  28. 4 meses, 3 semanas, 2 días, de Cristian Mungiu
  29. En tierra de hombres, de Niki Caro
  30. Mi vida sin mí, de Isabel Coixet
  31. Grbavica (El secreto de Esma), de Jasmila Zbanic
  32. Ágora, de Alejandro Amenábar
  33. Flor del desierto, de Sherry Hormann
  34. María, llena eres de gracia, de Joshua Marston
  35. Persépolis, de Marjane Satrapi y Vincent Paronnaud
  36. Las maestras de la república, de Pilar Pérez Solano
  37. Pan y rosas, de Ken Loach
  38. Desde que no estás, de Rossella M. Bergamaschi
  39. La bicicleta verde, de Haifaa Al-Mansour
  40. Buda explotó por vergüenza, de Hana Makhmalbaf
  41. Manzanas, pollos y quimeras, de Inés París
  42. Quiero ser como Beckham, de Gurinder Chadha
  43. Madame Brouette, de Moussa Sene Absa
  44. Las hermanas de la Magdalena, de Peter Mullan 
  45. Backyard: El traspatio, de Carlos Carrera
  46. Monsterde Patty Jenkins
  47. La madrede Vsévolod Pudovkin
  48. La sonrisa de Mona Lisade Mike Newell
  49. Clara Campoamor, la mujer olvidadade Laura Mañá
  50. Planes para mañanade Juana Macías
  51. Piedras, de Ramón Salazar
  52. Erin Brockovichde Steven Soderbergh
  53. Gorilas en la nieblade Michael Apted
  54. Verónica Guerinde Joel Schumacher
  55. Frida, naturaleza vivade Paul Leduc
  56. La flor del malde Peter Kosminsky
  57. Los soldados de Sari, de Julie Bridgham
  58. Moolaadéde Ousmane Sembene
  59. A las cinco de la tarde, de Samira Makhmalbaf
  60. Coco avant Chanel, de Anne Fontaine
  61. La guerra contra las mujeres, de Hernán Zin
  62. Evelyn, de Isabel de Ocampo
  63. Lola, de Brillante Mendoza
  64. Mujeres en pie de guerra, de Susana Koska
  65. Wendy and Lucy, de Kelly Reichardt
  66. Mi brillante carrera, de Gillian Armstrong
  67. Mujeres de El Cairo, de Yousry Nasrallah
  68. Rosa Luxemburgo, de Margarethe von Trotta
  69. ¡Cuidado, resbala!, de María Camacho Gómez, Montserrat Clos Fabuel, Mercedes Cordero Suárez, Vanessa Gómez Martínez, Leonor Jiménez Moreno y Carolina Suarez Rasmussen
  70. Danzón, de María Novaro

[1] Aproximadamente el 90% de las películas están protagonizadas por varones.

David Harvey: leia Piketty, mas não se esqueça de Marx

POR DAVID HARVEY

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Reflexões sobre desigualdade do economista francês são brilhantes e oportuníssimas. Porém não conte com ele para compreender dinâmica central do sistema

Por David Harvey | Tradução: Inês Castilho (Outras Palavras)

Thomas Piketty escreveu um livro chamado Capital que causou uma tremenda comoção. Ele defende a taxação progressiva e a tributação da riqueza global como único caminho para deter a tendência à criação de uma forma “patrimonial” de capitalismo, marcada pelo que chama de uma desigualdade “apavorante” de riqueza e renda. Também documenta com detalhes excruciantes, e difíceis de rebater, como a desigualdade social de ambos, riqueza e renda, evoluíram nos últimos dois séculos, com ênfase particular no papel da riqueza. Ele aniquila a visão, amplamente aceita, de que o capitalismo de livre mercado distribui riqueza e é o grande baluarte para a defesa das liberdades individuais. Piketty demonstra que o capitalismo de livre mercado, na ausência de uma grande intervenção redistributiva por parte do Estado, produz oligarquias antidemocráticas. Essa demonstração deu base à indignação liberal e levou o Wall Street Journal à apoplexia.

O livro tem sido frequentemente apresentado como substituto para o século 21 do trabalho do século 19 de Marx, que leva o mesmo título. Piketty nega que fosse essa sua intenção, na verdade – o que parece certo, uma vez que seu livro não é, de modo algum, sobre o capital. Ele não nos conta por que razão ocorreu a catástrofe de 2008, e por que está demorando tanto para tanta gente se levantar, sob o fardo do desemprego prolongado e da execução da hipoteca de milhões de casas. Ele não nos ajuda a entender por que o crescimento é tão medíocre hoje nos EUA, em oposição à China, e por que a Europa está travada sob uma política de austeridade e uma economia de estagnação.

O que Piketty mostra estatisticamente (e estamos em dívida com ele e seus colegas por isso) é que o capital tendeu, através da história, a produzir níveis cada vez maiores de desigualdade. Isso, para muitos de nós, é má notícia. Além disso, é exatamente a conclusão teórica de Marx, no primeiro volume de sua versão do Capital. Piketty fracassa em observar isso, o que não é surpresa, já que sempre clamou, diante das acusações da mídia de direita de que é um marxista disfarçado, que não leu O Capitalde Marx.

Piketty reúne uma grande quantidade de dados para sustentar sua argumentação. Sua descrição das diferenças entre renda e riqueza é persuasiva e útil. E faz uma defesa cuidadosa da tributação sobre herança, do imposto progressivo e de um imposto sobre a riqueza global como possíveis (embora quase certamente não politicamente viável) antídotos contra o avanço da concentração de riqueza e poder.

Mas, por que razão ocorre essa tendência ao crescimento da desigualdade? A partir de seus dados (temperados com ótimas alusões literárias a Jane Austen e Balzac), ele deriva uma lei matemática para explicar o que acontece: o contínuo aumento da acumulação de riqueza por parte do famoso 1% (termo popularizado graças, claro, ao movimento Occupy) é devido ao simples fato de que a taxa de retorno sobre o capital (r) sempre excede a taxa de crescimento da renda (g). Isso, diz Piketty, é e sempre foi “a contradição central” do capital.

Mas esse tipo de regularidade estatística dificilmente alicerça uma explicação adequada, quanto mais uma lei. Então, que forças produzem e sustentam tal contradição? Piketty não diz. A lei é a lei e isso é tudo. Marx obviamente teria atribuído a existência de tal lei ao desequilíbrio de poder entre capital e trabalho. E essa explicação ainda está valendo. A queda constante da participação do trabalho na renda nacional, desde os anos 1970, é decorrente do declínio do poder político e econômico, à medida que o capital mobilizava tecnologia, desemprego, deslocalização de empresas e políticas antitrabalho (como as de Margaret Thatcher e Ronald Reagan) para destruir qualquer oposição.

Como Alan Budd, um conselheiro econômico de Margaret Thatcher, confessou num momento em que baixou a guarda: as políticas anti-inflação dos anos 1980 mostraram-se “uma maneira muito boa de aumentar o desemprego, e aumentar o desemprego era um modo extremamente desejável de reduzir a força das classes trabalhadoras… o que foi construído, em termos marxistas, como uma crise do capitalismo que recriava um exército de mão de obra de reserva, possibilitou que os capitalistas lucrassem mais do que nunca.” A disparidade entre a remuneração média dos trabalhadores e dos executivos-chefes era cerca de trinta para um em 1970. Hoje está bem acima de trezentos para um e, no caso do MacDonalds, cerca de 1200 para um.

Mas no segundo volume do Capital de Marx (que Piketty também não leu, como alegremente declara) Marx apontou que a tendência do capital de rebaixar os salários iria, em algum momento, restringir a capacidade do mercado de absorver os produtos do capital. Henry Ford reconheceu esse dilema há muito tempo, quando determinou o salário de cinco dólares para o dia de oito horas dos trabalhadores – para aumentar a demanda dos consumidores, disse.

Muitos pensavam que a falta de demanda efetiva estava na base da Grande Depressão da década de 1930. Isso inspirou políticas expansionistas keynesianas depois da Segunda Guerra Mundial e resultou em alguma redução das desigualdades de renda (nem tanto da riqueza), em meio a uma forte demanda que levou ao crescimento. Mas essa solução apoiava-se no relativo empoderamento do trabalho e na construção do “estado social” (termo de Piketty) financiado pela taxação progressiva. “Tudo dito”, escreve ele, “durante o período de 1932-1980, durante cerca de meio século, o imposto de renda federal mais alto, nos EUA, era em média 81%.” E isso de modo algum prejudicou o crescimento (outra parte das evidências de Piketty, que rebate os argumentos da direita).

Ali pelo final dos anos 1960, ficou claro para vários capitalistas que eles precisavam fazer alguma coisa a respeito do excessivo poder do trabalho. Por isso, Keynes foi excluído do panteão dos economistas respeitáveis, o pensamento de Milton Friedman deslocou-se para o lado da oferta, e teve início uma cruzada para estabilizar, se não para reduzir a tributação, desconstruir o Estado social e disciplinar as forças do trabalho. Depois de 1980, houve uma queda nas taxas mais altas de imposto e os ganhos do capital – uma grande fonte de renda dos ultra ricos – passaram a ser tributados por taxas muito menores nos EUA, aumentando enormemente o fluxo de capital do 1% do topo da pirâmide.

Contudo, o impacto no crescimento era desprezível, mostra Piketty. Tal “efeito cascata” de benefícios dos ricos ao restante da população (outra crença favorita da direita) não funcionou. Nada disso era ditado por leis matemáticas. Tudo era política. Mas então a roda deu uma volta completa, e a pergunta mais importante tornou-se: e cadê a demanda?

Piketty ignora essa questão. Os anos 1990 encobriram essa resposta com vasta expansão do crédito, inclusive estendendo o financiamento hipotecário aos mercados sub-prime. Mas o resultado foi uma bolha de ativos fadada a estourar, como aconteceu em 2007-2008, levando consigo o banco de investimento Lehman Brothers, juntamente com o sistema de crédito. Entretanto, enquanto tudo e todos se davam mal, depois de 2009 as taxas de lucro, e a consequente concentração de riqueza privada, recuperaram-se muito rapidamente. As taxas de lucro das empresas estão agora tão altas quanto sempre estiveram nos EUA. As empresas estão sentadas sobre grande quantidade de dinheiro e recusam-se a gastá-lo, porque as condições do mercado não estão robustas. A formulação da lei matemática de Piketty camufla, mais do que revela a respeito da classe política envolvida. Como notou Warren Buffett, “claro que há luta de classes, e é a minha classe, a dos ricos, que está lutando, e estamos vencendo.” Uma medida-chave de sua vitória são as crescentes disparidades da riqueza e renda do 1% do topo em relação a todo o resto da população.

Há, contudo, uma dificuldade central no argumento de Piketty. Ele repousa sobre uma definição equivocada de capital. Capital é um processo, não uma coisa. É um processo de circulação no qual o dinheiro é usado para fazer mais dinheiro, frequentemente – mas não exclusivamente – por meio da exploração da força de trabalho. Piketty define capital como o estoque de todos os ativos em mãos de particulares, empresas e governos que podem ser negociados no mercado – não importa se estão sendo usados ou não. Isso inclui terra, imóveis e direito de propriedade intelectual, assim como coleção de arte e de joias. Como determinar o valor de todas essas coisas é um problema técnico difícil, sem solução consensual. Para calcular uma taxa de retorno, r, significativa, temos de ter uma forma de avaliar o capital inicial. Não há como avaliá-lo independentemente do valor dos bens e serviços usados para produzi-lo, ou por quanto ele pode ser vendido no mercado.

Todo o pensamento econômico neoclássico (base do pensamento de Piketty) está fundado numa tautologia. A taxa de retorno do capital depende essencialmente da taxa de crescimento, porque o capital é avaliado pelo modo como produz, e não pelo que ocorreu em sua produção. Seu valor é fortemente influenciado por condições especulativas, e pode ser seriamente distorcido pela famosa “exuberância irracional” que Greenspan apontou como característica dos mercados imobiliário e de ações. Se subtrairmos habitação e imóveis – para não falar do valor das coleções de arte dos financiadores de hedge – a partir da definição de capital (e as razões para sua inclusão são bastante débeis), então a explicação de Piketty para o aumento das disparidades de riqueza e renda desabariam, embora sua descrição do estado das desigualdades passadas e presentes ainda ficassem em pé.

Dinheiro, terra, imóveis, fábricas e equipamentos que não estão sendo usados produtivamente não são capital. Se é alta a taxa de retorno sobre o capital que está sendo usado, é porque uma parte do capital foi retirado de circulação. Restringir a oferta de capital para novos investimentos (fenômeno que estamos testemunhando agora) garante uma alta taxa de retorno sobre o capital que está em circulação. A criação dessa escassez artificial não é só o que fazem as companhias de petróleo, para garantir a sua elevada taxa de lucro: é o que todo o capital faz quando tem oportunidade. É o que sustenta a tendência de a taxa de retorno sobre o capital (não importa como é definido e medido) exceder sempre a taxa de crescimento da renda. Esta é a forma como o capital garante sua própria reprodução, não importa quão desconfortáveis sejam as consequências para o resto de nós. E é assim que a classe capitalista vive.

Há muitas outras coisas valiosas nos dados coletados por Piketty. Mas, sua explicação de porque as tendências à desigualdade e à oligarquia surgem está seriamente comprometida. Suas propostas de solução para a desigualdade são ingênuas, se não utópicas. E ele certamente não produziu um modelo de trabalho para o capital do século 21. Para isso, ainda precisamos de Marx ou de seus equivalentes para os dias atuais.

 

Como as empresas de ônibus maquiam custos

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Ex-analista de crédito de banco revela sinais de fraude contábil, uso de “laranjas” e formação de máfias por parte do cartel que controla transporte público 

Por Fernando Souto, no blog do Nassif

Não vou comentar muito sobre as falas do meu xará Haddad. Vou me concentrar no que sei e que vi, para dizer que em grande parte dos estudantes estão sim certos.

Fui analista de crédito num banco privado em 2006/7 em São Paulo, e neste banco, muitas empresas de ônibus eram clientes. muitas mesmo. e havia um jeito bem especial de lidar com elas.

Ocorre que para uma empresa ganhar empréstimo, ela tem de ter fundamentos econômico financeiros – ou seja capacidade de pagar.  E aí é que o bicho pega: pelas demonstrações contábeis oficiais, praticamente nenhuma empresa de ônibus teria condição de pegar empréstimos. E por que? Porque são estas são as demonstrações (balanços e dres) exibidas para os governos, a partir das quais geram-se as planilhas de custo e, em seguida, as tarifas.

Havia coisas estranhas, das quais dois pontos eu me lembro com maior atenção: O ativo imobilizado era muito baixo (ativo imobilizado é o que a empresa tem de propriedade, portanto seriam frotas de ônibus e propriedades das empresas). Muitas, mas muitas, apresentavam patrimônio liquido negativo – ou seja acumulavam, por anos consecutivos, prejuízos que superavam o capital social da empresa. As contas nunca fechariam — as receitas seriam baixas perante as despesas. Além disto, as empresas possuem passivos muito maiores que ativos, e como ativo tem de ser igual ao passivo mais patrimônio liquido, este tinha de ser negativo.

Com uma situação financeira dessas, uma empresa não toma emprestado. E aí vai o pulo do gato (que dá medo de contar): é óbvio que estas informações estão deturpadas (sendo gentil), e vou explicar como. Tanto era assim que nós tínhamos uma planilha em excel que fazia o calculo do real balanço destas empresas.

Os pontos são os seguintes: o ativo imobilizado não está declarado nestes balanços. É como se a ideia do pequeno empresário que não distingue o próprio bolso do caixa da empresa fosse levada às alturas. Donos de empresas têm parte da frota em nome próprio (ou de laranjas). Ou, então, compram em nome da empresa e depois “revendem”  para terceiros (sócios), após quitados os financiamentos. Os terrenos nos quais estão as garagens das empresas são de propriedade dos sócios e também não aparecem no balanço. Por fim, essas empresas não pagam encargos trabalhistas, adiando-os ao máximo, para aproveitar, quando aparece, uma renegociação. Fazem isso para aumentar muito o exigível de longo prazo, propositalmente, além de ganhar caixa extra pago pelo governo.

Cientes dessas informações, para fazer a análise consolidávamos o patrimônio dos sócios (que na verdade seriam das empresas) com o das empresas. É claro que elas davam lucro na realidade – afinal estes empresários seriam tão idiotas de continuar pra sempre num setor com altos fluxos de dinheiro se tivessem sempre prejuízos? Mas tem mais…

Àquela época, e ainda hoje, existem várias empresas que atendem o transporte urbano – em São Paulo, Rio de Janeiro e outras tantas cidades –, mas são poucas famílias que controlam de fato esta estrutura. Fazem isso indiretamente, através de sociedades.  Em São Paulo, se não me engano, eram cinco famílias, que tomaram o setor na privatização da CMTC. Quando estas empresinhas começam dar muitos problemas, elas fecham e abrem outro CNPJ, com outros sócios. Fornecedores e especialmente funcionários ficam a ver navios. Por falar em funcionários, lembram do que falei sobre os direitos? Pois bem, deixem-me explicar uma coisa que acontecia até com os gerentes do banco, quanto mais com os funcionários. No dia a dia, esses empresários são representados por “gerentões” armados. Se eles não querem atender alguém, e no contato comum todos os funcionários, são esses representantes que cuidam da negociação. Então, por exemplo — isso já ouvi próprios motoristas comentando no Rio — quem vai entrar na justiça pra cobrar direitos, na melhor das possibilidades nunca mais trabalhara em qualquer outra empresa de ônibus. Se encher muito o saco, vai buscar o direito e não volta.

Para quem acha que eu estou exagerando, ficam 2 dicas: procurem noticias sobre assassinatos de sindicalistas de onibus. de vez em quando tem um. E outra: no final do debate de 2004 na rede globo, naquela eleição fatídica em que marta perdeu do josé serra, ela comenta que teve de entrar com colete a provas de balas numa reuniao com empresas de onibus (trabalhei com um cara da alta cupula do governo dela, e ele comentava que ela e o secretario sempre iam de colete, e que os empresarios levavam seguranças armados e que sempre tinham de passar detectores de metais para tirar as armas dos caras).

Enfim, o que eu queria dizer é o seguinte: sei que o Haddad fez mestrado na minha faculdade de Economia, portanto não é de todo inábil com números e devia abrir as tais planilhas de custo. Seria bom puxar um bom auditor pro lado dele, e usar as críticas como legitimação pra rever esse lamaçal todo. Seria uma forma de aproveitar esta pressão contra estas empresas. A não ser que realmente seja só o apoio de financiamento em época de eleição que valha a pena… Em suma, é uma grande máfia, e não vai ser fácil desarmá-la – só que também, se for pra defendê-las, poder-se-ia ter mantido o Serra, certo?

E realmente não são só vinte centavos. Acho que a força desta garotada que está na rua – e que une Istambul, Occupy wallstreet, 15m na Espanha e todos os outros – vem do cansaço de ver todas as decisões importantes de intresse público serem dominadas por grandes interesses de pequenos grupos privados – e em todos os casos, defendidos na porrada por um Estado policialesco.

E pra não dizer que não falei das flores, fiquem com essa pequena pérola de genialidade empreendedora baronesca do imperadores do transporte publico do Brasil. Na Veja, claro, em 1998. (se o setor não dá lucro, porque eles estão tão ricos?)

http://veja.abril.com.br/280198/p_064.html

E sobre um barao especifico (um dos mais poderosos), no Rio de Janeiro. (ps1: parece que é o sogrão do Paes. ps2: vejam quantos sócios ele tem três como em outro baronato, a família comprou uma empresa de aviação).

http://www.milbus.com.br/revista_portal/revista_cont.asp?1448

http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/0881/noticias/a-dificil-decolagem-do-cla-barata-m0116513

Fonte: http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/como-as-empresas-de-onibus-maquiam-custos/